Papel, caneta e café, por favor?

 

Manhã gélida de agosto, o vento anunciava que este seria mais um dia em que tudo permaneceria no exato lugar, mesmo com sua presença. Nada tinha a tal cor da felicidade, muito menos a do bom humor. Tudo se encaminhava para ser um dia qualquer, sem boas recordações ao final da noite.

Sai de casa, enfrentei aquela manhã e encaminhei-me para o lugar de todos os dias, a Lanchonete do Pia. Um senhor de 50 anos, com a total fisionomia do meu pai. Sentei-me e o próprio dono veio me receber, como de costume. Com um sorriso animador, ele perguntou se eu desejava o mesmo de toda a segunda (torrada e um copo d'água).

Pensei por instante e respondi:
- Hoje eu quero algo diferente Pia, podes me trazer papel, caneta e café, por favor?
Pia olhou-me com ar de espanto e gentilmente respondeu que sim.

Em poucos minutos eu continha entre os dedos uma caneta e a sua frente um papel que estava pronto pra receber qualquer desabafo, qualquer novidade, qualquer novo sonho. Eu estava com olhos que não procurem alguém no meio da multidão, enquanto meu coração não se aquecia, eu fugia de toda a temperatura através do café extra forte, sem nenhum pingo de adoçante.
                                           
Entre meus pensamentos, aqueles que o papel não suportaria a verdade, outros que eu não gostaria de lembrar. O coração cansado pulsava em seu ritmo costumeiro, tentando achar um refúgio para este momento. Tentei entre as músicas, entre as fotografias, entre as cartas, mas nada era capaz de amenizar tudo isso.

Parecia tão comum eu me sentir assim, mas isso tudo estava deixando de ser rotina para se tornar parte de mim. Eu não impedia a felicidade de chegar, muito menos a solidão de sair, eu tinha que libertar alguns sentimentos e abrir as portas para novos. Mas, cadê a coragem?

Perdi-me no tempo e sem sentir preenchi aquela folha com relatos surpreendente a mim mesma. Mas eu tinha outros compromissos além de me importar com meus sentimentos em pedaços. Dobrei a folha e a coloquei no bolso, com o desejo de não perde-lá, mas também de não reencontra-lá tão rápido.

Fui ao encontro de Pia para fazer o pagamento do que eu havia consumido e ele encontrava-se triste do outro lado do balcão. Estranhei em o ver assim, porque escolhi esse lugar pela sua alegria, por tudo que sinto quando estou aqui, mesmo que seja acompanhada de problemas.

Perguntei o que havia acontecido e Pia respondeu:
- Não houve absolutamente nada Alice.
Percebi a mentira através do seu olhar. Fiz o pagamento e dirigi-me a saída, mas algo dentro de mim me fazia voltar. Olhei para trás e aquela tristeza me consumia. Voltei, peguei um pedaço de papel e aquela caneta que me ajudou e coloquei na frente de Pia e disse:
- As palavras são um forte remédio, uma bela companhia e um bom refúgio. Escreva o que você sente, assim como eu faço. Seus problemas não sumirão, mas certamente irão diminuir.

Pia, agradeceu-me e então eu consegui partir, levando comigo aquele olhar triste que talvez carregue sofrimentos infinitos, problemas sem soluções e um coração sem concerto. E eu, tão egoísta ao me preocupar somente com os meus e fazer deles os maiores. Então aprendi que devemos sempre olhar para o lado e importar-se com quem realmente importa-se com a gente.
Comentários
19 Comentários

19 comentários:

  1. aii que lindo e profundo.

    gostei muito de ler esse texto nessa manhã gélida de agosto. foi bom mesmo.

    beijos <3

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  2. Que texto bom.
    Sabe, acho que escrever sempre faz bem, ajuda e muito.
    Alice fez o que era certo e tenho certeza que ela gostou de ter feito! :)

    http://amar-go.blogspot.com/

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  3. Alice fez exatamente o que muita gente não faz! Pra nós, nossos problemas são maiores que os dos outros. Mas cada problema tem seu devido significado na vida da cada pessoa.

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  4. Cara autora, você na magia de suas palavras consegue nos surpreender nos pequenos detalhes. Espero que todos nós como a Alice e pensamos mais nos outros. Parabéns.

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  5. Josiane Lima15/08/2011 11:28

    Ju, tuas palavras sempre me encantam. Eu estava com saudade daqui. Era era como a Alice, me importava muito com os meus problemas, agora mudei. =D

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  6. Nossos problemas podem não ser os maiores, mas só nós sabemos o quanto dói.

    Texto maravilhosamente bem escrito.

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  7. Realmente original e surpreendente!

    Abraços

    psrecuerdame.blogspot.com

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  8. Qdo eu já nw sei mais o qe dizer, escrevo. Seja la o que for, mesmo que seja uma frase, um trecho de musica... qlqer coisa que saia da ponta do meu lápis ameniza. Não cura, mas ameniza muuito.

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  9. Muitoo interessante o texto e profundo
    http://perfeitinha-blog.blogspot.com/

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  10. Oi linda, achei seu blog simplesmente encantador. Parabéns! Estou te seguindo. Comecei o meu faz pouco tempo, se puder dar uma força. Beijos e muito sucesso.

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  11. Olá, tem selinho pra vc no meu blog:

    http://marianapenna.blogspot.com/2011/08/selinhos.html

    É o segundo!!

    Bjuss e bom domingo!

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  12. Oii, nossa adoramos o texto!!
    Quanta personalidade!!
    Adoramos seu blog, Beeijos..
    Grazi e Bianca!

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  13. Bom realmente vç tem jeito com as palavras né,eu as conheeco bem...Como sempre ñ perdeu o jeito de escrever né...Muito criativa vç,logo se nota qe ñ mudou...beijo

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  14. Oie! Gostei do seu blog e achei bacana que também conhecesse o meu. Ele engloba bastante coisa, ilustração, música, literatura, moda e coisas que toda mulher adora!
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  15. Parabéns pelo texto Juliane e por sua classificação :)

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  16. que lindo, escreves muito bem, querida. vou te seguir adoro ler textos (:



    http://manualdosdezesseis.blogspot.com/

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